terça-feira, 19 de setembro de 2017

Municipio de Joaquim Távora: origens históricas ... em 1924

Prof.Me. Roberto Bondarik
bondarik@outlook.com 

Em 2017 o Município de Joaquim Távora completa oitenta e oito anos de emancipação politica e instalação, dados em 21 de setembro de 1929. Recebeu o nome do Capitão Joaquim Távora após a vitória da Revolução de 1930.
Suas origens remontam à posse da "Fazenda Jaboticabal da Barra Grande" estabelecida às margens do ribeirão Barra Grande que desagua no Rio das Cinzas. Posse reinvindicada por José Antonio Pinto da Fonseca que, em 1891, declarava te-la feita em 1850.
Os registros de medição da Fazenda teriam sumido em 1906, causando disputas e invasões, até que fossem regularizados pela ação dos advogados Affonso e Marins Camargo.
Em suas terras surgiu o povoado de "Barra Grande", "Barra do Cinzas" ou "Barra Velha" em 1910,  que foi transferido para o local onde, atualmente, é a cidade de Guapirama em 1917.
O "Distrito da Barra Grande" foi criado em março de 1920, sendo transferido para a povoação de "Affonso Camargo" que se formava onde passaria o Ramal Ferroviário do Paranapanema. Destacou-se na instalação desse povado e distrito, o fazendeiro Miguel Dias.
Em 1924, quando da inauguração da Ferrovia São Paulo - Paraná, em seu primeiro trecho entre Ourinhos-SP e Cambará-PR, com a entrega da ponte ferroviária sobre o Rio Paranapanema, um grupo de jornalistas e politicos vieram pelo Ramal do Paranapanema, de trem desde Curitiba até Affonso Camargo. Fazia parte do grupo o jornalista e também historiador Romário Martins. 
Romário Martins produziu uma serie de textos, descrevendo a viagem e principalmente a região por onde passaram. A coletânea "Sertão em Flor: o Paraná cafeeiro" constitui-se em um dos primeiros relatos descritivos, histórico, geografico, social e que demonstrou uma preocupação ecológica com os destinos do Norte do Paraná. A parte quatro do Sertão em Flor trata especificamente de "Affonso Camargo", seu fundador Miguel Dias, a economia e a produção local naquele distante junho de 1924, há 93 anos.
A seguir o texto em questão no qual procurou-se manter a ortografia vigente àquele tempo.

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Sertão em Flor: o Paraná Cafeeiro - IV

“AFFONSO CAMARGO” SEDE DO DISTRICTO DE BARRA GRANDE – UM SERTANISTA DE VALOR – UMA FLORESTA DE PEROBEIRAS

Romário Martins


MARTINS, Romário. Sertão em Flor: o Paraná Cafeeiro – parte IV. O Dia, Curitiba-PR, pp.01 e 08, 22 jun. 1924.


            “Affonso Camargo” surgiu com a estrada de ferro. Seu fundador, Miguel Dias, emprestou, sem querer o seu nome ao logarejo de outrora. Era ahi, antes um sertão bruto, sem casas e lavouras, apenas habitado por esse sertanejo que se tornou celebre pela sua hospitalidade. Seu nome é conhecido de quantos se habituam ao sertão, e as amizades que conquistou perdem-se pelas regiões mais distantes de Minas e São Paulo.
            Miguel Dias é, na verdade, um sertanista sympathico, de feições leaes, de trato simples, mas sincero, comedido nos gestos e nas palavras, reservado, perscrutador, insinuante, positivo e ousado, sem se atrapalhar nos juízos que expede, sem perder a serenidade que o caracteriza.
            Deve-lhe a povoação – futura villa, tudo o que possue: as terras doadas, as ruas traçadas e abertas, o próprio local onde se assenta a linda estação, grande parte dos prédios que se erguem, a abertura de casas de negócio, hospedaria e outros melhoramentos notáveis.
            Existem actualmente 150 edificios, alguns bem acabados, outros de proporções avantajadas. Em derredor avista-se a matta rica de essências florestaes e de madeiras de lei. Duas serraria começam já a sua obra devastadora para atender reiteradas encomendas de S.Paulo.
            O pinheiro não existe. Substitue-o a peroba, o jequitibá, a canelleira, o cedro, a caviuna, a guajuvira, a cabreuva, o pao marfim e outras qualidades de madeira.
            Um movimento de carroças começa a sua faina entre a estação e Carlopolis, a villa mais próxima ligada por excelente estrada de rodagem mandada construir pelo Exmo. Sr. Presidente Munhoz da Rocha, a quem essa região nova deve já assignalados serviços.
            Uma outra estrada de rodagem, traçada e executada por um dos mais intelligentes lavradores dessa zona rica, o major José Infante Vieira, proporciona também vehiculos um trafego regular, transportando mercadorias da estação para Santo Antonio da Platina e Jacarezinho, ligação essa de poucos dias e para a qual o Presidente do Estado concorreu com um valioso auxílio em dinheiro.
            “Affonso de Camargo” será, dentro em pouco tempo, a sede um futuroso município. Os prédios que seus moradores começam a construir, dentro de um regimem sabiamente delineado pela previsão do benemérito fundador – Miguel Dias, já se apresentam dignos de uma cidade, sobre ruas e praças rigorosamente marcadas.
            Três hotéis attendem numerosa freguezia. Um deles mantem magnifico serviço de cozinha, quartos asseiados, garage para automóveis.
            As casas de commercio apresentam movimento considerável. Crescido número de forasteiros para ahi se dirige, á procura de terras para a abertura de sítios e fazendas. Dia a dia crescem as compras, avultam os negócios, effectuam-se largas empreitadas para a derrubada das mattas e plantio de cereaes.
            Alguns pontos do districto, os mais altos, prestam-se para a cultura do café, principalmente pelos lados da Pedra Branca, onde essa lavoura já se delinea, embora em pequena escala. Os outros logares são magníficos para a cultura do algodão, da cana de assucar, fumo, arroz, feijão e toda sorte de cereais. A engorda de porcos constitue, no momento, a maior riqueza.
            São na verdade admiráveis as florestas de peroba. Em uma faixa extensa, quase interminável, erguem-se milhares desses troncos de considerável diâmetro e altura, com suas frondes lá no alto, de folha meuda, sobre galhos retorcidos que se abrem para o sol. Enfileiram-se muito juntos dominando a matta. Assim erguidos, parecem indicar uma cultura adrede preparada, que muitas dezenas de anos de chuva e sol fizeram vingar, plenos de viço.
Encontram-se ás vezes arvores abatidas de fresco, pelo vendaval que conseguiu abrir os alicerces profundos, ou pelo machado inclemente do lenhador. Outras, o tronco já se confunde com o solo humano, sem casca, meio apodrecido pelo tempo, o mesmo tempo que o gerou e lhe deu todo explendor, que temperou o lenho para tornal-o aço rubro, de fibras retejadas, consistentes e longas. Causam piedade assim consumidos nomeio de companheiros mais afortunados que disfructam o grande banquete da Natureza, plenos de vida, dominando o azul do espaço, soberbos da sua força e da sua belleza.
Dentro em pouco, por ahi há de passar a indústria destruidora do machado e da serra. Derrubados, retalhados em toras, desdobrados em taboas, lá irão pelos trilhos a fora as perobeiras seculares, em demanda dos grandes centros, para a feitura do vigamento, das cobertas, do assoalho e dos batentes das casas.
Todo esse tronco desfeito embellezará cidades, será o pão de pobres operários suarentos, se transformará em riqueza de alguns, em metal espécie para o movimento dos bancos.
Desse sertão bruto restarão, por algum tempo, as raízes expostas e depois germinarão as searas que hão de florescer para os fructos, para a alegria do lavrador que as formou pelo trabalho constante.
Os troncos das perobeiras seculares não voltarão para reconstituir a matta de outrora; mas as searas hão de florescer todos os annos, com as chuvas e o sol das estações, e da mão do lavrador que enriquece passarão para outras mãos commerciantes até chegar ao seu glorioso destino: a vida humana. E ahi, por um prodígio de Deus, serão o sangue, calor, sentimento, intelligencia, vontade; luz dos olhos, pressentimentos, alegrias, lagrimas e dissabores, esperanças e desenganos. E como a perobeira que cresceu e teve pujança, que dominou pela força, que atrahiu a luz e as aves e que resistiu aos vendavaes de muitos annos, também esse outro tronco humano um dia tombará com o seu cortejo de esperanças, de sonhos e visões...






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